Vivo de uma recordação. A todo o instante ecoam na memória as saudades do passado e o temor da tua ausência. Bradei por ti. Onde estás tu, que não te encontro? Estou perdida no negrume do vazio. Não tenho força para combater as garras aguçadas que me arrastam para as profundezas da escuridão. Não tenho energia para lutar contra os tentáculos asfixiantes que envolvem o meu corpo, para sorver o meu Eu, deixando-me sem vida. Não consigo prolongar esta batalha incessante e perpétua. O desespero e o cansaço dominam o meu corpo. Porém, já não sinto a dor. Deixei-me levar pela força da recordação e consigo sentir a protecção do teu afago, ver o calor do teu sorriso, ouvir a suavidade da tua voz. Encontro-me a fixar o brilho penetrante dos teus olhos cor do céu. Porém, os teus olhos aliciam-me a entrar nas suas profundezas, suprimindo o desejo de controlo do meu corpo. Anseio por manter-me imóvel e fixar o espectro dos teus olhos, pois quero iludir-me contra a realidade e poder tornar real esta ilusão. Mas sinto o poder inigualável do azul cor do céu arrastar-me para o seu interior, ao qual me deixo levar. Surpreendo-me com uma clareza inquietante. Na alvura, sou invadida por uma chama de calor intensamente tranquilizante, e não pelo tremor gélido do negrume que vagarosamente aguardava. Encontro-te, finalmente. Brado por ti. Estás a sorrir para mim. Mas não consigo abraçar-te, tocar-te. Estamos separadas por uma linha ténue, mas intransponível e inquebrável. Porém, tu continuas a sorrir. E a todo o instante ecoam na memória as saudades do passado e a certeza da tua eterna presença. Vivo de um sorriso.




